Filhos de pastor

Minha mãe, Rebeca, meu pai, eu e meu avó Eliezér.

Tenho 30 anos. O título “filha de pastor” não pesa mais – quer dizer, um pouquinho ainda pesa! – Mas até me casar me perseguiu bastante e sei que foi forte o suficiente pra mudar várias coisas na minha vida e no meu caráter (pra o bem e pra o mal).

Quando se é filho de pastor é como se você fosse um manequim numa vitrine. É cobrado uma conduta meio que ‘acima da média’. Claro que não é cobrado abertamente, mas se você é membro de alguma igreja pense se você não espera que os filhos de pastor sejam mais obedientes, comportados, pró-ativos que as outras crianças da igreja! Ou, quando o filho do pastor (de qualquer idade) pisa na bola não vem à mente aquele versículo em tom de acusação (e geralmente sem muito amor envolvido) : “Não consegue pastorear a família, quer pastorear a igreja!”

Essa conduta acima da média não é apenas sobre seu comportamento como cristão, mas é cobrado mais do seu conhecimento bíblico, da sua maturidade, da sua compreensão, da sua generosidade em dividir (tudo! sua comida, roupa, dinheiro, seus pais), da sua disponibilidade em servir e proatividade (se nenhuma outra pessoa quer orar, cantar, fazer aquela atividade, pelo menos o filho de pastor vai fazer!).

Pessoalmente eu era uma criança dócil, não tive muitas dificuldades pra lidar com a cobrança naquela época. Mas hoje, como adulta, vejo que isso afetou sim a minha vida e meu modo de pensar. Quando se tem de estar sempre na frente da igreja e ganha-se elogios por isso (quem nunca elogiou uma criança, adolescente por uma participação especial?) o gosto pelo status cresce. Eu me lembro de ter ficado extremamento chateada por não ter nenhuma participação especial numa das peças de Natal feitas na igreja! Ainda mais que eu fui a única a ir em todos (T-O-D-O-S) os ensaios – sim, era minha mãe quem ensaiava a cantata das crianças!.

Quando me lembro dessas coisas, penso que fazia muitas vezes com excelência, mas era apenas pra mim mesma! Eu conhecia o versículo que “era tudo pra Glória de Deus”! Eu sabia que podia adorar a Deus da mesma maneira junto com todo o coral atrás de todos (nessa época era uma das mais altas), mas eu não fiz isso de forma sincera! Mesmo depois de adulta essa dificuldade em não ter um “papel especial” me persegue.

Fazer algo pra ganhar um pouco da Glória de Deus pra mim! Ah! o quanto eu sou movida a elogios ainda hoje! Meu Senhor, me livre de procurar a minha própria glória!

Hoje, convertida, sei também do quanto de privilégio tive como filha de pastor. Sei que ouvi a Palavra de Deus com muito mais frequência que as outras crianças da igreja. Morei numa cidade pequena a maior parte da minha adolescência, e ia em todas (T-O-D-A-S) as programações da igreja. Até encontro de casais já fui (devia ter uns 12, 13 anos), pois como a maioria dos pastores, não tínhamos tios, avós e demais parentes perto pra meus pais nos deixarem com alguns deles. Hoje louvo a Deus porque essas palavras serviram pra minha salvação e não pra minha condenação.

Meus pais, apesar de Pastor e Esposa de Pastor, também eram pecadores. Tem muitos defeitos e estão sendo aperfeiçoados por Deus dia a dia, mas através deles aprendi a conhecer o Deus que sirvo hoje. É assim que Deus age, desde a Bíblia, ele continua chamado seus eleitos através de pessoas imperfeitas em processo de santificação. Seu tesouro em vasos de barro pra que a glória seja de Cristo, não nossa.

Como mãe, saber que faz parte do plano de Deus usar pessoas imperfeitas, me tira um peso das costas. Não há pressão forte o suficiente, imperfeição minha ou condenações fortes o suficiente, não há exaltação forte o suficiente ou mesmo humilhações demais na vida de um crente que possam tirar seus filhos do caminho de Cristo se, antes de serem ‘filhos do pastor’ eles forem Filhos de Deus.

Que Deus nos dê ajude a ensinar nossos filhos a obedecê-Lo, seja qual for nossa profissão, seja o quão influentes consigamos ser com os outros. Que confiemos que salvação só depende dEle mesmo e de sua Graça. Não somente a salvação dos nossos filhos, mas a nossa também!

4 comentários para “Filhos de pastor”

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